EM MEMÓRIA DE DAVID LEVINE

Raros são os autores que deixam uma marca tão profunda entre os camaradas de profissão e os leitores de várias gerações, como foi o caso de David Levine.

 

Presidente Honorário do World Press Cartoon, mestre Levine deixou-nos na última semana de Dezembro, aos 83 anos. O obituário do New York Times evaca-o como herdeiro dos grandes mestres do século XIX Honoré Daumier e Thomas Nast.
RECORDANDO O NOSSO PRIMEIRO PRESIDENTE HONORÁRIO Descobri David Levine em meados da década de 1970 nas páginas do jornal português Diário de Notícias e foi uma revelação, tornando-se na minha maior influência no momento em que iniciava a carreira de cartoonista. Nascido em Brooklyn a 20 de Dezembro de 1923, Levine estudou na Escola de Belas-Artes de Filadélfia e no Institut Pratt de Brooklyn. Começou pela pintura, com óleos e aguarelas. Sobre a sua pintura, um crítico de arte do Herald Tribune escreveu:«Amaneira de pintar de Levine, sem ser anacrónica nem imitativa, está apta a fazerreviver a linguagem pictural do século XIX com personalidade e intensidade.» Ao dedicar-se à caricatura, transportou esse classicismo para os seus desenhos, como se o pintor vigiasse permanentemente o caricaturista, o que levou a que muitos o considerassem o herdeiro de Honoré Daumier e de Thomas Nast . No final dos anos 50 do século passado, colabora com as revistas Esquire e Atlas e, a partir de 1963, passou a publicar as suas caricaturas na New York Review of Books. Desde então, publicou entre dez a doze por mês, até 2007, ano em que lhe foi diagnosticada uma doença ocular que pôs fim à sua colaboração com a revista nova-iorquina. Durante esse período, criou mais de 3800 desenhos. Na sua longa carreira, colaborou também com o Washington Post, a Time, a Newsweek, a New Yorker, a Rolling Stone e com inúmeros jornais e revistas de todo o mundo, levando a que muitas das suas caricaturas se tornassem parte da iconografia do século XX.Em 2005, numa breve passagem sua por Lisboa, tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente através de um amigo comum – o grande desenhador uruguaio Hermenegildo Sábat. Quando, em 2006, lhe pedi para ser o Presidente Honorário do World Press Cartoon, que acabávamos de lançar, em Sintra, aceitou prontamente, emprestando-nos o seu nome e o seu imenso prestígio. Gratos, tudo temos feito para estar à altura dessa honra e dessa responsabilidade. As opiniões sobre a sua extraordinária carreira são unânimes: para o director da New York Review of Books, ele foi «o maior caricaturista do seu tempo»; para o cartoonista Steve Bell, do The Guardian, «as suas caricaturas são simplesmente arte»; para o caricaturista e cenarista Jules Feiffer, ele foi o autor de «extraordinários desenhos de uma extraordinária percepção» e «o maior ilustrador da segunda metade do século XX». O exemplo de excepcional qualidade e independência que Levine nos legou continuará a influenciar os caminhos que o World Press Cartoon irá percorrer. Até sempre, Mestre.
ANTÓNIO ANTUNES